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Falta de ética: a gente vê por aqui

Na última sexta-feira, dia 24, a Rede Globo exibiu uma reportagem especial sobre Dubai no seu semanal Globo Repórter. Como era de se esperar, o foco da matéria foi mostrar a toada megalomaníaca presente nesta cidade construída no meio do deserto. A emissora carioca mostrou, com extremo orgulho, as ilhas artificiais, os caixas eletrônicos de barras de ouro, os pontos de ônibus com ar-condicionado, além do maior anel, do prédio mais alto, do hotel mais luxuoso e do maior shopping center do mundo. Um assombro.

No entanto, e para espanto daqueles que vêem toda esta opulência como algo muito mais sinistro do que encantador, a reportagem de Gloria Maria mostrou este paraíso do consumismo como o lugar mais espetacular do planeta. Como um verdadeiro parque de diversão para adultos e seus cartões de crédito. A reportagem inteira foi contada por uma repórter claramente deslumbrada e com empolgação à flor da pele. Não contei. Mas, Gloria Maria repetiu as palavras “luxo”, “luxuoso” e “luxuosa” pelo menos umas vinte vezes.

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Não sei se a Globo se equivocou (ou quem sabe tenha recebido uma cifra interessante do Ministério do Turismo dos Emirados Árabes), mas seus telespectadores – e agora mais do que nunca – são predominantemente de classe C. Ou seja, pessoas que nunca terão oportunidade de disfrutar de absolutamente nada do que foi mostrado no programa. Além disso, tratando-se de um canal de TV aberta, em um país que tem 25% da população entre as classes D e E, mostrar este show horrendo do desperdício com tanto entusiasmo é algo ultrajante. Um desrespeito.

Mas na verdade, em um momento onde o Brasil finalmente encotra-se em uma ascendentne econômica, a Rede Globo quer apenas reforçar este caminho do consumismo: “Vejam, povo brasileiro, este é o céu!”. Porém, qualquer pessoa minimamente sensata olha para o modelo de sociedade existente em Dubai e vê o quão artifical é. Parece que este não-lugar (um enorme deserto de areia, inabitável para qualquer ser vivo) utiliza-se de todos os subterfúgios materiais numa vã tentativa de se transformar em um lugar. No entanto, e no máximo, consegue ser apenas o ícone supremo da afirmação do consumismo, do superficialismo, da futilidade e do desperdício.

É claro. Para se blindar de críticas como a que está sendo apresentada, ela reservou uma parte do programa para mostrar o “lado negro” de Dubai. Em uma duração de quase uma hora, dedicou dois ou três minutos exibindo a vida de imigrantes da ìndia e Bangladesh que vivem na periferia da cidade. Mas rapidamente, sem deixar a peteca cair, pulou logo para o Shopping Center de 1200 lojas que tem também o maior aquário coberto do mundo.

E no final de cada um dos blocos do programa, Sérgio Chapelin e Glória Maria se deliciavam com o conteúdo recém apresentado. A orgia do consumo que ela presenciou na terra dos emires realmente deixou a repórter encantada. As dezenas de milhões de brasileiros das classes C,D e E, vão começar os seus finais de semana tendo a certeza mais do que absoluta que nem mil vidas de trabalho e economia as farão disfrutar do que acabaram de assistir. O que é, diga-se de passagem, digno de profunda lamentação. Mas no final, o que de fato irá importar é tão-somente quantos pontos de Ibope o programa alcançou. E uma nova pauta será elaborada. Sempre com este objetivo.

Por Roberto C Véras J
Com contribuições da equipe de trabalho

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Publicado em maio 29, 2012 por e marcado .
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